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Caminhoneiro que morava em Santa Helena retrata as péssimas condições das estradas brasileiras e o desânimo da classe

Profissionais do volante enfrentam o descaso do Governo Federal com malha precária, vias simples saturadas e pedágios que corroem o frete.

Cruzar o Brasil ao volante de um caminhão deixou de ser motivo de orgulho para se transformar em um teste de sobrevivência diário. O abandono explícito da malha rodoviária sob responsabilidade do Governo Federal e de gestões públicas faz com que o lucro da categoria seja engolido pelo descaso.

Enquanto Brasília arrecada bilhões em impostos, o que se entrega na ponta da linha são vias saturadas, sem acostamento e tomadas por crateras que se multiplicam a cada chuva.

O paradoxo da infraestrutura brasileira é cruel. De um lado, as rodovias de pista simples — que predominam em mais de 85% da malha — obrigam o caminhoneiro a disputar espaço em ultrapassagens perigosas.

Do outro, praças com pedágios caríssimos espalham-se como postos de cobrança por serviços que o asfalto não devolve em qualidade. O resultado? Um aumento de até 28% no custo operacional do transporte com combustível desperdiçado, quebra de suspensão e pneus estourados.

Caminhão destruído do ex-vereador missalenese (reprodução)


Região onde morreu o ex-vereador de Missal, PR, aos 75 anos é retrato puro do que se passa:

A situação na região de Três Bueiras, no município de Trairão (PA), encaixa-se perfeitamente nessa realidade de indignação, mas com uma dinâmica de cobrança bem específica que gera muita polêmica entre os caminhoneiros.

Foi nesta região que Guiomar José Bohnert, de 75 anos, em uma fatalidade que chocou a comunidade local de Missal e também da região, acabou perecendo.

A comunidade de Três Bueiras fica às margens da BR-163, a rodovia que serve de principal corredor para o escoamento de grãos do Centro-Oeste rumo aos portos do Pará.

O asfalto: remendos e obras eternas

A rodovia é historicamente conhecida pelas condições difíceis, e a manutenção constante com operações tapa-buraco e filas quilométricas de carretas ainda fazem parte da rotina, gerando lentidão e estresse.

O pedágio salgado (e focado nas carretas)

O grande ponto de revolta na região é a praça de pedágio localizada justamente em Trairão (no km 636 da BR-163). Trata-se do primeiro trecho de rodovia federal privatizado no estado do Pará, e os valores cobrados são considerados altíssimos:

A tarifa básica foi estipulada em R$ 36,60 por eixo (com relatos de reajustes na categoria que elevam o custo para caminhões pesados de grande porte). Para uma carreta bitrem ou rodotrem de 7 a 9 eixos, cruzar essa praça significa desembolsar centenas de reais em uma única passagem.

Para tentar diminuir a rejeição local, a concessionária e a ANTT isentaram carros de passeio, motos, ônibus e caminhões menores (com menos de 4 eixos). Ou seja, a conta pesada ficou inteiramente nas costas do transporte de cargas (veículos comerciais a partir de 4 eixos), que é justamente quem escoa a produção e sofre com o asfalto deformado pelo excesso de peso.

Portanto, a região de Três Bueiras e Trairão ilustra exatamente o “Custo Brasil”: o caminhoneiro que transporta carga pesada paga um pedágio proporcionalmente caríssimo para rodar em uma via ainda muito deficitária.



O colapso no Sul e o mapa da vergonha nacional

Engana-se quem pensa que o problema se restringe ao Norte ou Nordeste. A região Sul, um dos maiores polos agroindustriais do país, sofre com um asfalto que pede socorro. Dados da Pesquisa CNT de Rodovias mostram que, enquanto o Paraná respira devido a novas concessões, Santa Catarina amarga apenas 36,8% de sua malha como boa ou ótima. O cenário mais dramático da região fica no Rio Grande do Sul, onde impressionantes 73% das estradas são consideradas regulares, ruins ou péssimas.

Abaixo estão os trechos mais calamitosos do país apontados pelo levantamento da CNT, que geram o desânimo generalizado da classe:

  • RST-472 (Tenente Portela a Frederico Westphalen – RS): A pior rodovia de toda a região Sul e a 6ª pior do país. São 70 km de conceito “péssimo”, com asfalto destruído e geometria caótica.
  • ERS-324 (Passo Fundo a Nova Prata – RS): Classificada nacionalmente como péssima devido ao asfalto craquelado e alto índice de acidentes.
  • BR-163 (extremo-oeste de SC): Eterno gargalo de escoamento, classificado como ruim por sofrer com fluxo saturado e falta crônica de manutenção.
  • Ligação Natividade (TO) a Barreiras (BA): Considerada a pior ligação do país, com pavimento destruído, falta de sinalização e acostamento perigoso.
  • MA-106 (Maranhão): Classificada como péssima por apresentar erosões severas na pista que provocam tombamentos frequentes de carga.
  • BR-364 (Acre): Pesadelo logístico nacional, alternando entre lama intransitável no inverno e crateras profundas no verão.

O resultado dessa matemática perversa é o cansaço de uma categoria essencial. O frete mal pago já não cobre o risco de perder a vida em pistas sem manutenção.

Enquanto o governo distribui promessas, o caminhoneiro segue desviando de buracos e rezando para chegar inteiro ao próximo destino. O Brasil roda no limite, e a paciência de quem dirige também já chegou ao fim.



Elder Boff/Fonte Extra com inf. CNT (Conf. Nac. Transportes)

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