Edit Template

Até quando abusarão da nossa paciência?

Por Caio Gottlieb*

As urnas mal tinham esfriado no domingo quando a caneta de Alexandre de Moraes já estava molhada de tinta.

Poucos minutos depois de o Tribunal Superior Eleitoral proclamar a reeleição de Lula, a Polícia Federal pediu o cancelamento dos passaportes de Flávio Bolsonaro. O ministro atendeu na mesma noite, com uma presteza que a Justiça brasileira raramente dedica a quem a procura por um remédio ou uma aposentadoria. A Procuradoria-Geral da República sequer foi ouvida. Moraes, como de costume, dispensou intermediários.

Com um único despacho, o ministro implodiu mais uma vez qualquer esboço de pacificação. Enquanto se ensaiava o discurso de distensionamento entre os Poderes e de reconciliação de um país rachado ao meio, Moraes escolheu o caminho oposto: transformar em alvo, na primeira noite após a votação, o líder de quase metade do eleitorado.

Nada alimenta tanto a divisão do Brasil quanto a certeza, para milhões de brasileiros, de que a derrota nas urnas vem acompanhada de punição nos tribunais.

O senador é apenas investigado, num inquérito sigiloso sobre suposta lavagem de dinheiro ao lado do amigo e advogado Willer Tomaz. Não foi denunciado, não é réu e sequer foi ouvido. O fundamento para enxergar nele um fugitivo em potencial foi uma frase do irmão, Eduardo, que dias antes do segundo turno sugerira que o senador deixasse o país caso perdesse. Ilação sobre suposição, conjectura sobre conjectura.

O próprio Flávio gravou um vídeo afirmando que nunca havia pensado em sair do Brasil e que entregaria os documentos para se defender do que chamou de aberração.

No meio jurídico, a decisão não convenceu nem quem passa longe da militância. O criminalista André Fini Terçarolli, mestre em Direito Processual Penal pela PUC-SP, apontou o óbvio que o ministro preferiu ignorar: perder uma eleição não é indício de fuga, e a declaração de um irmão não prova intenção alguma do senador.

Para ele, um pedido tão colado à proclamação do resultado, seguido de uma decisão sem manifestação da PGR, sugere uma iniciativa preparada de antemão. Usar o aparato do Estado para constranger um adversário, resumiu, é prática autoritária.

Fica no ar uma pergunta incômoda: se Flávio tivesse vencido, a urgência seria a mesma? A resposta talvez tenha sido dada pelo próprio Lula, no debate da Band, em 18 de outubro, quando avisou ao adversário que os inquéritos contra ele iam andar: “te prepara, porque vai ter problema”.

Profecia ou roteiro, cumpriu-se em menos de dez dias.

Diante de um desenho que apontava a prisão como próximo passo, sem qualquer fundamento sólido que a sustentasse, Flávio foi aconselhado a não esperar pelo lance seguinte. Deixou o país com a família por via terrestre, pela Argentina, e seguiu para os Estados Unidos, onde o Departamento de Estado já lhe tinha assegurado vistos de entrada e permanência.

Washington não assumiu nada oficialmente, mas a logística da travessia, batizada nos bastidores de Operação Alba, carrega impressões digitais difíceis de disfarçar. Fontes diplomáticas atribuem a coordenação ao secretário de Estado Marco Rubio, com aval da Casa Branca.

Lula chamou o gesto de vergonhoso. Vergonhoso é um país em que um senador, candidato à Presidência da República que recebeu quase metade dos votos válidos, precise atravessar uma fronteira para não ser engolido por um processo inquisitório cujos autos nem sequer pôde conhecer.

O próprio Trump não fez cerimônia. Um dia depois da votação, disse que a eleição brasileira “pareceu fraudada”, classificou o processo como “terrível” e chamou de “muito estranha” a prorrogação do horário das urnas. Na madrugada desta quarta, voltou ao assunto para dizer que aprovaria a entrada do senador no país. Nos corredores da diplomacia, a aposta é que, encerradas as eleições de meio de mandato americanas, em 3 de novembro, a conta chegue ao governo Lula e aos ministros do Supremo e do TSE na forma de retaliações.

O desconforto não brotou do nada. No próprio domingo da votação, o ministro Cristiano Zanin atendeu justamente ao pedido da coligação de Lula e esticou em duas horas o funcionamento das urnas em todo o país, a ponto de o TSE suspender a apuração e de a decisão provocar mal-estar dentro da própria Corte eleitoral. Depois veio o placar.

Derrotado no primeiro turno por quase dois pontos, Lula saiu do segundo com mais de dez milhões de votos acima do que havia obtido três semanas antes e uma vantagem de três pontos e meio, tornando-se o primeiro candidato desde a adoção do segundo turno a reverter uma derrota na etapa inicial de uma eleição presidencial. Uma reviravolta estrondosa, que as grandes pesquisas não conseguiram enxergar.

Das 21 pesquisas nacionais divulgadas na reta final, 18 apontavam a vitória do senador, e todas, sem exceção, subestimaram a votação do petista. Os institutos saíram das urnas desmentidos e desmoralizados, inclusive aqueles que costumam atribuir à esquerda números sempre mais generosos.

Para um eleitorado que há anos reivindica o voto auditável, o conjunto da obra foi combustível farto para a desconfiança. A ironia veio do Oriente Médio: na mesma semana, Israel, uma das nações mais avançadas em tecnologia do planeta, escolheu seu Parlamento com cédulas de papel.

Seria cômodo carimbar a denúncia de perseguição como choro de direita derrotada, não fosse o fato de que as vozes mais contundentes em defesa do senador vêm justamente do outro lado do espectro.

Rui Costa Pimenta preside o Partido da Causa Operária, legenda que se declara revolucionária e comunista, e anulou o voto no segundo turno. Foi assim que reagiu à decisão de Moraes:

“Sete minutos. Foi o tempo entre o TSE confirmar a derrota de Flávio Bolsonaro e a PF pedir a Alexandre de Moraes o passaporte dele. Moraes autorizou na mesma noite. Quem acha que isso é a tal ‘luta contra o fascismo’ está sendo enganado. É, pura e simplesmente, perseguição política contra quem teve quase 60 milhões de votos. E quem comanda a caçada? Um ministro cuja mulher tem mais de R$ 200 milhões em contratos com empresas de Daniel Vorcaro, o banqueiro do escândalo do Banco Master. Com que moral esse juiz julga alguém por corrupção? É a avacalhação da República. Uma ofensa à inteligência do povo brasileiro.”

E completou: “Vamos ser simples: é um ultraje que qualquer um no Brasil esteja sendo investigado e/ou preso enquanto Alexandre de Moraes não está nem investigado, quanto mais preso. Como no Brasil ninguém leva nada a sério, ele está inclusive mandando prender gente. As instituições brasileiras não têm autoridade para nada. Discutir Flávio, Lula, Willer Tomaz, Lulinha ou qualquer outra coisa antes de Moraes é ofender a inteligência do povo brasileiro. Quando o Estado não segue a lei, não tem mais lei.”

Em entrevista, o dirigente foi adiante. Segundo ele, a medida “nada tem a ver com a defesa da democracia”. O que move o ministro é o fato de o PL ter saído das urnas com bancadas expressivas na Câmara e no Senado, capazes de levar adiante o impeachment de integrantes da Corte. “Então, a perseguição é por causa disso, é um jogo de poder.” E explicou o voto nulo: “O STF exerce aqui uma ditadura, todo mundo sabe disso. E na realidade, nós estamos vendo a continuidade da ditadura. Muita gente estranhou que a gente votasse nulo, entre o Flávio Bolsonaro e o Lula. A ação de Moraes contra Flávio é uma demonstração de por que a gente não tinha condições de votar no Lula. Porque votar no Lula era também votar no STF.”

O segundo depoimento vem de ainda mais longe. Glenn Greenwald, jornalista americano radicado no Brasil, vencedor do Pulitzer e nome historicamente identificado com a esquerda, escreveu:

“Não é apenas Flávio Bolsonaro quem fugiu do Brasil para escapar da perseguição tirânica de Alexandre de Moraes e da ala pró-Lula do Supremo Tribunal Federal. Há dezenas de exilados brasileiros que fizeram o mesmo: jornalistas dissidentes, ativistas, blogueiros e políticos que fugiram para evitar a prisão certa por oposição política. Na maioria desses casos, Moraes exigiu a extradição daqueles que fugiram e que ele quer prender de volta no Brasil.

Mas os pedidos de extradição de Moraes foram repetidamente negados por múltiplos países e instituições com base no fato de que essas perseguições são motivadas politicamente ou de outra forma corrompidas. Entre aqueles que concluíram isso: Espanha, Itália, Interpol e até os EUA sob Biden.
Hoje mesmo, a Itália recusou a exigência do Brasil de extraditar Eduardo Tagliaferro, que foi um assessor de alto escalão de Moraes, mas fugiu para a Itália após Moraes acusá-lo de ter sido minha fonte em um enorme vazamento do escritório de Moraes que eu obtive para reportagens que fiz com a Folha em 2024.

Esse vazamento massivo nos permitiu publicar cerca de 20 artigos provando abusos sistêmicos de poder por Moraes contra seus inimigos políticos: exatamente o motivo pelo qual tantos brasileiros, incluindo Bolsonaro, sabem que não podem ter um julgamento justo no Brasil.

A Itália recusou extraditar a pessoa acusada de ser nossa fonte com base no fato de que os procedimentos seriam uma farsa porque Moraes, como ele tão frequentemente faz, quer atuar como a suposta vítima, investigador e juiz, e assim sua exigência cai bem fora dos padrões de extradição da Itália.

Novamente, múltiplos países concluíram o mesmo, mostrando que farsa o sistema judiciário brasileiro, outrora respeitado, se tornou sob o regime Lula/Moraes. Moraes supervisionou um sistema de perseguição política disfarçado de justiça criminal que foi reconhecido como uma farsa por múltiplos países que não são exatamente aliados de Bolsonaro.

Ninguém em sã consciência que seja um inimigo político de Moraes permaneceria no Brasil uma vez que fique claro que ele pretende prendê-lo, já que ele provou que a culpa é uma conclusão pré-determinada e ele opera sem limites legais ou constitucionais de qualquer tipo.
É por isso que o asilo sob o direito internacional existe: para proteger aqueles que não podem obter justiça em seu próprio país porque o sistema de justiça foi corrompido e apropriado para perseguição política.

Muitas pessoas, como Julian Assange, precisaram dessa proteção, que Lula aplaudiu. Agora as pessoas precisam dela contra Moraes no Brasil. Isso é, tristemente, um dos principais legados de ambos, Lula e Moraes, nos últimos seis anos.”

Ao mesmo tempo, o homem que conduz o cerco segue blindado. Nem o contrato milionário do escritório da esposa com o Banco Master lhe custou um pedido formal de explicações, num sistema em que ninguém ousa impor limite a quem acumula todos os papéis do processo. Num tribunal assim, como se vê mais uma vez, a sentença costuma vir antes da acusação.

Em suma, num país em que o investigado perde o passaporte antes de ser ouvido, enquanto o ministro do contrato milionário segue ditando as regras, atravessar a fronteira não foi fuga. Foi um ato de legítima defesa.



*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá (afiliada Bandeirantes). Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.

Compartilhar:

Notícias Relacionadas

  • All Post
  • Saúde e Bem-Estar
Edit Template

© 2024 Todos os Direitos Reservados a FONTE EXTRA
Desenvolvido com o por VRCLIC – Soluções Digitais 

Pressione ESC para sair

Temos um número de máximo de 30 caracteres para cada busca.