Por Neri Mazzochin*
Se considerarmos o berço do sistema político da democracia de Atenas, a qual sequer considerava o voto como expressão de democracia, mas sim a participação efetiva de todo cidadão na definição das principais decisões dos mandatários.
Temos que, a implantação do “voto” como única e máxima expressão final da democracia e, por consequência, da escolha dos nossos mandatários, definitivamente não representa e não permite o exercício pleno e real da escolha democrática, afinal com o simples “voto”, estamos apenas “legalizando” uma pseudodemocracia.
Explico: o simples exercício do “voto”, na maioria das vezes obrigatório, que por si só já não é mais uma escolha livre, mas uma imposição, não legitima um sistema democrático, ao contrário apenas “legaliza” o uso e abuso do poder.
Tomando como exemplo o Brasil, em que com base na prática ou fatos, não há nada mais cínico do que denominar nosso sistema de “democrático”, vez que, absolutamente as eleições de qualquer mandatário, decorre da sua influência econômica e social, da estrutura pré-definida partidária e do abuso do poder político e econômico já institucionalizado.
E, ultimamente, do domínio e coaptação das instituições republicanas: Legislativo, Executivo e Judiciário, as quais impõe ao cidadão comum, não só a dependência através do uso e abuso do poder, mas da máquina pública e do orçamento oriundo do contribuinte como meios “legitimados” para “adquirir” o voto, o qual se transformou numa mera merca mercadoria, em que os mais desassistidos, dão em troca para manter os inúmeros e direcionados benefícios sociais “institucionalizados”, os militantes ideológicos e partidários, para se beneficiar das estruturas do Estado e, a classe privilegiada, para continuar a lucrar com o sistema, perpetuando assim a manutenção do sistema pseudodemocrático.
Tudo isso pode ser traduzido em números: existem cerca de 155 milhões de eleitores no Brasil, mas apenas são computados cerca de 100 milhões. O Congresso é composto por 531 Deputados Federais e 81 Senadores, somando 612 parlamentares, os quais e tem a sua disposição um orçamento de Emendas Parlamentares de mais demais de 60 bilhões de reais por ano, somando 240 bilhões em 4 anos e mais 6 bilhões de Fundo Eleitoral e Fundo Partidário, totalizando 247 bilhões.
Fazendo as contas, cada um dos 612 parlamentares, terá a sua disposição mais de 400 milhões das nossas contribuições de impostos para que possa coaptar ou “adquirir” os poucos mais de 100 mil “votos” em média que precisam para se eleger, ou seja, pode dispor de cerca de 4 mil reais para “coaptar” uma única consciência dependente ou militante ideológico partidário ou privilegiado interesseiro.
Soma-se a isso, toda a estrutura do Congresso, o qual tem um orçamento de mais R$ 15 bilhões de reais e toda as estruturas de benefícios sociais, assistenciais que submetem a dependência 94 milhões de pessoas geridos pelo Cadastro Único, as quais ganham menos de R$ 209 reais mensais.
Ou seja, 44% da população dependem de algum auxílio, ao custo de mais de 400 bilhões de reais ano, tais como Bolsa Família, Auxílio Doença-BPC, Seguro Desemprego, seguro Defeso, Auxilio Gás, Pé-de-Meia, vele gás, subsídios de empréstimo consignados de endividamento permanente.
Tais benefícios são usados explicitamente no marketing político para captação do “voto”, além, é claro das estruturas de cargos do Governo Federal, Governos Estaduais e Municipais, Legislativo e até Judiciário para que, qualquer candidato imposto pela agremiação partidária, possa usar e abusar de todo esse poder estrutural político/administrativo e econômico e se consagrar eleito “democraticamente”, com o aval “legal” da estrutura da Justiça Eleitoral que consome mais 11,2 bilhões de reais ano para manter o sistema, quando na verdade toda essa estrutura pública e de poderio individual político e econômico, apenas legaliza a pseudodemocracia e não a participação efetiva.
Todo esse sistema e recursos são usados através de um marketing perverso e cínico para coaptar o “voto” e obter o respaldo “legal” para a manutenção ou conquista do poder e seu uso e abuso posterior, não oferecendo nenhuma escolha real, efetiva e livre ao cidadão.
Afinal, os candidatos são impostos pelo partido, o “voto” é obrigatório e coaptado via “aquisição” direta ou indireta e não apenas durante o período eleitoral, mas pela soma de recursos de 4 anos que chegam a cifras trilionárias.
Tudo, tudo para manter o sistema, o qual se repete infinitamente com a ampliação e legalização das estruturas partidárias e do “instituto” das reeleições, perpetuando um ciclo vicioso de abuso de poder político e econômico, tanto que na última eleição para prefeito, quase 90% dos mandatários foram reeleitos ou reelegeram seus sucessores, o que se repetiu neste ano de 2026 em relação aos deputados estaduais, federais, senadores, governadores.
Todo esse desvirtuamento da democracia originária de Atenas, a qual sequer considerava o voto, mas a participação efetiva do cidadão, foi reduzida apenas a “captação”, o aliciamento do voto que, como salientado, sequer é livre, pois é obrigatório, permitindo afirmar, sem sombra de dúvida, que não vivemos em um regime “democrático”, mas sim num sistema que legalizou uma pseudodemocracia.
O resultado ou consequência de todo esse perverso sistema de captação ou coaptação do “voto”, o qual foi “instrumentalizado, legalizado e institucionalizado” e está sendo mantido pelas mais altas instituições “republicanas”: Legislativo, Executivo e Judiciário, foi a transformação dessas instituições em “facções” ideológicas ou partidárias que usam e abusam do poder institucional, ironicamente concedido por nós eleitores, em obtenção de vantagem em seu próprio benefício e perpetuação do poder e não para o livre exercício democrático.
O mais grave e, muito pior do que as “facções” dos morros, das favelas ou do tráfico, das quais temos a opção de não se envolver, reivindicar, participar ou recorrer, são as “facções” institucionalizadas, pois dessas o cidadão de bem não tem como não precisar ou depender para o exercício livre de suas atividades ou de recorrer dos seus direitos mais elementares.
Afinal, o “voto” não poder se um instrumento para legalizar o uso e abuso do poder, atos mais perversos da destruição da democracia, mas sim o exercício do direito milenar de Atenas em que sequer considerava o “voto”, mas a participação efetiva nas principais decisões e controle dos mandatários, pois qualquer cidadão tem o direito constitucional de ter um governo e instituições republicanas honestas, em que:
A instituição do Judiciário, não decida em favor de quem os nomeou ou de quem recebeu vantagens e que julgue essencialmente pelos fatos e não por procedimentos convenientes.
A instituição do Legislativo, não legisle para que lhe ofereceu vantagem ou que lhe propicie a manutenção do poder.
A instituição do Executivo, não nomeie aliados partidários para que decidam ao seu favor ou lhe proteja de atos ilícitos, ou ainda, que lhe propicie vantagens na perpetuação do poder.







