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Mastergate: quando o xerife é o bandido

Por Caio Gottlieb*

As suspeitas em torno de Alexandre de Moraes não são novidade: já estavam na praça desde as primeiras revelações sobre o contrato do escritório de sua esposa com o Banco Master.

Eram, até aqui, indícios — fortes, mas indícios. O que muda agora é que o relatório de 218 páginas, concluído pela Polícia Federal e encaminhado ao ministro André Mendonça, transforma suspeita em prova: mensagens, metadados, cronologia de encontros, tudo documentado e checado.

É esse relatório que sugere, enfim, a abertura de investigação formal contra o ministro — algo que, até aqui, nunca havia de fato acontecido, e que só se torna possível se o plenário do Supremo aprovar.

O ministro respondia a Vorcaro por mensagens de visualização única, daquelas que se autodestroem depois de lidas — um recurso normalmente associado a quem não quer deixar rastro. Funcionou por um tempo. Até a Polícia Federal identificar que o destinatário de fato daquelas mensagens fantasmas era o telefone do próprio ministro do Supremo Tribunal Federal. O texto sumia da tela. O rastro, não. E o recurso à ferramenta já é, por si só, revelador: quem se comunica dessa forma sobre um assunto sigiloso não tem a consciência tão tranquila quanto alega.

A engenhosidade da discrição, aliás, virou capítulo à parte da investigação. Vorcaro redigia o texto no aplicativo de notas do iPhone, capturava a tela e enviava a imagem — não o texto — pelo WhatsApp, driblando qualquer rastro editável. A perícia da Polícia Federal cruzou metadados e furou o disfarce mesmo assim: o contato de destino estava salvo como “Alexandre Moraes Brasília”.

A aproximação entre os dois, facilitada no fim de 2023 pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, rendeu jantares e encontros em ambientes fechados, do tipo que normalmente não figura em agenda oficial.

O relatório tem o efeito de uma bomba de fragmentação: atinge Brasília, ricocheteia pelo noticiário internacional e fere, sobretudo, a reputação de uma corte que até a semana passada media a distância entre autoritarismo e Justiça em critério próprio.

Até a explosão do escândalo, Moraes era acusador, era julgador, era carrasco de vândalos, ditador de liminares, o homem que mandava prender por menos.

Descobriu-se agora do outro lado do processo: réu em potencial de um dos maiores episódios de corrupção envolvendo autoridade pública na história recente do país. A ironia é tão grossa que quase dispensa comentário. Quase.

Tudo isso tinha alicerce mais antigo. Já em janeiro de 2024, o escritório da esposa do ministro fechou com o Master um contrato de R$ 131 milhões — que o próprio Moraes editou, segundo a investigação —, complementado por mais R$ 50 milhões pagos em cotas de avião e helicóptero, e por cartões de crédito de R$ 300 mil liberados para os filhos do casal. Tudo isso enquanto o Banco Central e o Congresso discutiam o destino de uma instituição financeira à beira do colapso e o ministro, coincidentemente, tinha assento na conversa.

Foi sobre esse alicerce que, quase dois anos depois, no capítulo final da derrocada do Master, ministro e banqueiro trocaram 51 mensagens em 21 dias: pedidos, consultas, cobranças, gratidão. Três dias antes de ser preso, Vorcaro escreveu que tinha “a gratidão da vida” a Moraes. No dia seguinte, perguntou se já deveria fugir do país.

Explorar prestígio funcional em causa própria tem nome técnico. Aqui, teve nome de evento em Londres — cortesia oferecida ao procurador-geral da República, que perguntou ansioso se haveria charuto e uísque Macallan antes de, oito páginas depois, decidir que não havia nada para apurar.

Paulo Gonet não precisou fingir desconforto: assinou pessoalmente o despacho que pede a nulidade da investigação de André Mendonça sem contestar um único fato do relatório.

Não é dever de ofício questionar a veracidade das mensagens em que o próprio procurador-geral aparece declarando que “adora” o banqueiro e confessando sentir saudade dele. É mais cômodo discutir competência processual do que explicar por que seu filho pediu carona num jato de Vorcaro. Circunstância favorável, quando se pode ser, ao mesmo tempo, investigado e investigador do próprio caso.

Chame-se do nome que quiser — tráfico de influência, advocacia administrativa, captura institucional —, o resultado é a mesma teia de relações promíscuas entre autoridades da República e um banqueiro que, ao que tudo indica, tinha praticamente comprado meia república.

Com tanto empenho investido em não deixar rastro, o resultado foi irônico: o ministro foi pego como quem é flagrado com marca de batom na cueca — a expressão é chula, mas nenhuma outra descreve com tanta precisão o tipo de prova que sobrou. Robusta, incontestável, insofismável, indiscutível, indesmentível.

Vale lembrar sob que pretexto o Supremo acumulou tantos poderes extraordinários nos últimos anos: o de “salvar a democracia”, entre aspas que o tempo tornou cada vez mais necessárias. Nunca devolveu esse arsenal — pelo contrário, avançou.

A pergunta que fica é se a mesma Corte terá agora estômago para cortar na própria carne e sacrificar um dos ministros mais poderosos de sua história, ou se vai preferir proteger o companheiro à custa da própria credibilidade, numa crise moral e ética que já é a mais vexaminosa de seus 135 anos. A imagem do Supremo está irremediavelmente enlameada.

O caso empurra o país para um impasse que testa os próprios limites da separação de poderes: ou o colegiado do Supremo abre investigação formal contra um de seus pares, ou o Senado, pressionado por uma opinião pública em polvorosa, será obrigado a destravar um processo de impeachment.

No meio do caminho, ecoa a velha pergunta em latim que nenhuma democracia resolveu de vez — quis custodiet ipsos custodes, ou, quem vigia os vigilantes, quem julga os julgadores.

Um tribunal acusado, há anos, de reescrever a Constituição por conta própria e extrapolar suas prerrogativas terá agora que decidir se tem a coragem de julgar um dos seus. A resposta a essa pergunta dirá menos sobre Alexandre de Moraes do que sobre o próprio Supremo Tribunal Federal.

Há uma frase que resume o momento com mais precisão do que qualquer editorial: Moraes se encharcou de gasolina sozinho, mas quem escolheu a hora de acender o fósforo foi André Mendonça. Não havia obrigação de queimar a corte inteira — havia, sim, dever de transparência que um ministro decidiu cumprir enquanto outro preferia manter tudo em sigilo eterno.

Num país de instituições sérias, o desfecho já estaria dado: afastamento, renúncia, licença — o mínimo para preservar o que resta de autoridade moral num tribunal que se acostumou a ser parte e juiz de suas próprias crises. Mas o espírito de corpo do Supremo é uma liga resistente, e Moraes ainda conta com maioria de colegas dispostos a fechar fileira. O caso vai a plenário. A aposta, por ora, é que a toga proteja o que a ética já não sustenta.

A reação da imprensa expõe a dimensão do estrago. Gazeta do Povo e Estadão, jornais que já vinham historicamente cobrando os excessos autoritários e a disfuncionalidade do Supremo, apenas endureceram um tom que já era crítico — a Gazeta foi além e pediu abertura de impeachment. O dado mais revelador vem da Folha, historicamente mais amena com a Corte: agora também defende o afastamento de Moraes. O Globo não chegou a pedir a saída do ministro, mas exigiu apuração rigorosa dos fatos.

Quando até os jornais que normalmente disputam lados convergem no mesmo desconforto, o fato deixou de ser político e virou constrangimento institucional puro.

Não existe surpresa aqui. Existe apenas um caso concreto que deixou de ser segredo. As mensagens circulavam, esparsas, havia meses — desde a prisão de Vorcaro e o acesso da PF ao seu celular. Faltava reunir tudo num relatório coeso, verificado e à prova de dúvida, o que André Mendonça finalmente fez.

Como escreveu, com espírito, um colunista sobre o caso: por muito menos, o Xandão — como é conhecido o ministro — teria decretado a prisão cautelar de Moraes.

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