Por Caio Gottlieb*
Sempre muito bem informado sobre os bastidores da política, Lauro Jardim revelou, em sua coluna n’O Globo, que em um recente encontro com Lula, o ministro Gilmar Mendes alertou o presidente para que não continuasse criticando o Supremo Tribunal Federal.
Lula vinha reclamando, em conversas reservadas, do desgaste que a Corte vem sofrendo por causa do envolvimento de integrantes do STF no escândalo do Banco Master, entendendo que isso respinga diretamente em seu governo.
Gilmar foi direto:
— O senhor andou falando do STF, mas será o Supremo quem vai, se for preciso, vigiar o TSE nestas eleições.
A preocupação de Lula e a cobrança do decano denunciam, por si só, o consórcio que governa o Brasil.
Mas a declaração de Gilmar ganha outro sentido quando se lembra de quem comanda hoje o Tribunal Superior Eleitoral: Nunes Marques e André Mendonça, presidente e vice da corte eleitoral, ambos indicados por Bolsonaro.
Para o decano e seus pares, o TSE deste pleito está, portanto, em mãos adversárias — e é por isso que a “vigilância” anunciada por Gilmar não é zelo institucional, é a garantia dada ao parceiro nervoso de que qualquer decisão da corte eleitoral desagradável ao Planalto encontrará corretivo no andar de cima.
Porque é isso que o diálogo expõe: Lula se incomoda com o desgaste do Supremo porque sabe, com a precisão de quem já fez as contas, o quanto sua sobrevivência política depende dele.
Não é segredo que a maioria das demandas que o governo leva à Corte volta favorável — o STF deixou de ser árbitro para funcionar como braço protetor do Planalto, sempre disposto a cobrar lealdade em troca do favor.
A desconfiança não nasceu agora. Em 2022, o eleitor já experimentou um TSE e um STF que confundiram arbitragem com militância: as decisões, majoritariamente favoráveis à campanha de Lula e desfavoráveis à de Bolsonaro, pesaram de forma decisiva sobre a disputa eleitoral daquele ano.
Em outubro de 2023, o próprio Gilmar Mendes cometeu o ato falho que resume o período: disse, sobre a eleição de Lula, que “isso se deveu a uma decisão do Supremo Tribunal Federal”.
Falava do desmantelamento da Lava Jato, mas a formulação escolhida — não “contribuiu”, não “favoreceu”, mas “se deveu” — é uma confissão de paternidade que nenhuma nota de esclarecimento desfaz.
E aqui está o ponto que a direita ingenuamente não calculou ao comemorar a composição do TSE: pouco importa quem preside a corte eleitoral, se toda decisão sua pode ser recorrida ao Supremo, e este tem maioria esmagadora nomeada por governos petistas, somada aos ministros que, mesmo indicados por outras gestões, hoje orbitam confortavelmente o poder.
Qualquer revés da esquerda na Justiça Eleitoral sobe um andar e desce revertido. A arbitragem de primeira instância pode até ser mais isenta; a instância de revisão já tem o resultado combinado.
Que a máquina já foi religada, o presente confirma: há poucos dias, Alexandre de Moraes abriu inquérito contra o senador Flávio Bolsonaro por uma publicação nas redes, a partir de representação da Polícia Federal com endosso da Procuradoria-Geral da República — o mesmo roteiro, os mesmos personagens, a engrenagem girando antes mesmo de a campanha começar oficialmente.
Resta a pergunta que ninguém no Supremo terá a honestidade de responder: se a última palavra eleitoral já tem dono certo antes mesmo de o primeiro voto ser contado, que nome se dá a isso que não seja o óbvio?
Defesa da democracia é a etiqueta. O conteúdo da caixa, qualquer eleitor de 2022 já reconhece de cor.

*Caio Gottlieb: Jornalista e publicitário, fundador e diretor da Agência Caio. Apresentador do programa Conexão Tarobá, na TV Tarobá (afiliada Bandeirantes). Um espaço de opinião, bastidores e análise sem filtro.







