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Quando a verdade incomoda

Por André Becker*

Quem ainda tem coragem de permanecer do lado da verdade?

Há momentos em nossa vida em que participamos de uma experiência e voltamos para casa diferentes. Não necessariamente porque encontramos todas as respostas, mas porque saímos carregando perguntas que não nos deixam mais em paz.

Foi assim comigo neste último fim de semana.

Participei de um retiro de cura e libertação. Foram dias de oração, reflexão, silêncio e encontro com Deus. Mas, em meio a tudo aquilo, uma inquietação começou a tomar forma dentro de mim.

Enquanto refletia sobre aquilo que precisamos permitir que Deus cure e liberte em nossa própria vida, comecei também a olhar para a realidade ao nosso redor.

E então me veio uma pergunta:

O que está acontecendo com nós, cristãos, quando começamos a ter medo de defender a verdade?

Não falo da verdade que nos convém. Falo daquela verdade que nos confronta, que exige conversão, que nos obriga a reconhecer nossos próprios erros e que, muitas vezes, nos coloca diante de escolhas difíceis.

A correção que começa por nós

No capítulo 18 do Evangelho de Mateus, Jesus apresenta um ensinamento que continua extremamente atual.

Ele nos orienta sobre o que fazer quando alguém erra. Primeiro, procurar a pessoa. Conversar. Corrigir. Se necessário, buscar testemunhas. Depois, levar a questão à comunidade.

É interessante perceber o caminho proposto por Jesus.

Ele não começa pela exposição pública.

Não começa pela humilhação.

Não começa pelo julgamento.

Começa pela verdade acompanhada de responsabilidade.

E talvez esse ensinamento esteja fazendo muita falta em nossos dias.

Vivemos em uma época em que uma acusação publicada nas redes sociais pode destruir uma reputação em poucas horas. Muitas vezes julgamos antes de conhecer os fatos, condenamos antes da investigação e escolhemos acreditar naquilo que confirma nossas próprias convicções.

Mas a verdade não deveria ter partido.

A justiça não deveria ter lado.

E a ética cristã não pode mudar conforme a pessoa que está sendo acusada.

Jesus também incomodou os poderosos

Quando olhamos para a história de Jesus, percebemos que Ele não foi perseguido porque buscava poder.

Foi perseguido porque sua mensagem confrontava consciências.

Jesus denunciou a hipocrisia, enfrentou a exploração religiosa, chamou as pessoas à conversão e colocou a dignidade humana acima de interesses estabelecidos.

Sua verdade incomodou.

E sabemos o resultado: a cruz.

Ao longo da história do cristianismo, muitos homens e mulheres também sofreram perseguição por permanecerem fiéis à sua consciência e à sua fé.

Isso nos leva a uma pergunta incômoda:

Será que o cristão de hoje está disposto a pagar algum preço para permanecer fiel à verdade?

Ou será que preferimos uma fé que não incomoda ninguém?

O cristão e a realidade brasileira

Não podemos olhar para tudo isso apenas dentro das paredes da igreja.

Vivemos em um Brasil marcado por grandes desafios: corrupção, fraudes, desperdício de recursos públicos, desrespeito às leis, crises institucionais, conflitos políticos e uma profunda perda de confiança nas instituições.

Casos envolvendo fraudes contra o INSS e as investigações relacionadas ao Banco Master são exemplos recentes de situações que precisam ser acompanhadas com seriedade pelas autoridades e pela sociedade.

Mas existe uma regra que o cristão não deveria abandonar:

investigação não é condenação.

Acusação não é prova.

Suspeita não é sentença.

Precisamos desejar que tudo seja rigorosamente investigado e, ao mesmo tempo, respeitar o direito de defesa e o devido processo.

Isso vale para quem pensamos ser culpado.

E vale também para quem admiramos.

Porque um dos maiores perigos da política é quando deixamos de procurar a verdade e passamos apenas a defender “o nosso lado”.

Se alguém que pensamos ser nosso adversário pratica um erro, queremos justiça.

Se alguém do nosso lado faz a mesma coisa, encontramos justificativas.

Isso não é justiça.

É paixão política.

E quando a paixão política toma o lugar da consciência, podemos acabar defendendo aquilo que, em outras circunstâncias, condenaríamos.

O Apocalipse e a verdadeira batalha

É nesse ponto que o livro do Apocalipse pode nos ajudar a compreender algo mais profundo.

Suas imagens são fortes: o dragão, a besta, poderes que seduzem, perseguem e procuram dominar.

Ao longo da história, muitas pessoas tentaram identificar essas figuras diretamente com determinados povos, grupos políticos, ideologias ou instituições.

Precisamos ter prudência.

O Apocalipse não deveria ser transformado em um instrumento para simplesmente apontarmos o dedo e declararmos quem é “o dragão” ou quem é “a besta”.

A mensagem é muito mais profunda.

O dragão representa a realidade do mal que se opõe a Deus. E essa realidade pode se manifestar através da mentira, da violência, da injustiça, da corrupção, da sedução pelo poder e da perseguição à verdade.

São João Paulo II, ao refletir sobre Apocalipse 12, apontou justamente para esse confronto entre o poder do mal e o projeto de Deus.

Talvez, portanto, a pergunta mais importante não seja:

“Quem é o dragão?”

Mas:

“Quais são os mecanismos do mal que estamos permitindo entrar em nossa sociedade — e até na igreja e em nosso próprio coração?”

Porque o mal não precisa necessariamente chegar com aparência assustadora.

Às vezes ele chega disfarçado de poder.

De dinheiro.

De ideologia.

De vaidade.

De mentira.

De intolerância.

E até de religião.

A Igreja também precisa olhar para dentro

Seria muito fácil escrever tudo isso apontando apenas para o mundo.

Mas o Evangelho não nos permite fazer isso.

A Igreja também precisa olhar para dentro.

Onde existe ser humano, existe a possibilidade de erro. Onde existe poder, existe a possibilidade de abuso. Onde existe dinheiro, existe a tentação da corrupção. Onde existe vaidade, existe o risco de esquecermos que estamos aqui para servir.

Por isso, não podemos utilizar a fé como escudo para esconder erros.

A Igreja precisa continuar sendo lugar de verdade, conversão, misericórdia e serviço.

E nós, cristãos, precisamos lembrar que não fomos chamados para sermos fiscais do pecado alheio.

Fomos chamados primeiro à conversão.

Tiago nos fala de cura

É aqui que a segunda passagem bíblica que me acompanhou nessa reflexão ganha um significado especial.

Tiago 5,16 nos convida a reconhecer nossos pecados, confessá-los e orar uns pelos outros para que sejamos curados.

Talvez essa seja uma das maiores necessidades do Brasil.

Precisamos de cura.

Cura da mentira.

Cura da corrupção.

Cura da intolerância.

Cura da violência.

Cura da vaidade.

Cura da omissão.

Cura do ódio político.

Cura da incapacidade de reconhecer nossos próprios erros.

Porque não haverá transformação verdadeira de uma sociedade se não houver transformação do coração das pessoas.

E quando chegarem as eleições?

Foi também durante o retiro que uma reflexão me chamou particularmente a atenção: a necessidade de estarmos atentos ao processo eleitoral.

Não apenas para saber em quem votar.

Mas para saber por que votar.

Em períodos eleitorais, muitos se aproximam da fé. Falam de Deus, de família, de valores e de moralidade.

Mas o cristão precisa olhar além do discurso.

Precisamos conhecer a trajetória.

Observar as atitudes.

Comparar palavras e ações.

Perguntar quem realmente demonstra compromisso com a verdade, com a justiça, com a dignidade humana, com o bem comum e com a responsabilidade no uso dos recursos públicos.

Não existe candidato perfeito.

Não existe partido perfeito.

E Deus não pertence a partido algum.

Por isso, não devemos entregar nossa consciência a ninguém.

O voto é uma escolha política, mas também é uma responsabilidade.

Não devemos votar apenas por medo.

Não devemos votar apenas por raiva.

Não devemos votar simplesmente porque alguém fala aquilo que gostaríamos de ouvir.

E muito menos porque alguém utiliza o nome de Deus para conquistar nossa confiança.

Precisamos discernir.

Mas discernir também significa respeitar

Defender valores cristãos não significa odiar quem pensa diferente.

Jesus nos ensinou a amar.

Isso não significa aceitar como correto tudo aquilo que contradiz nossas convicções.

Significa defender nossas convicções sem retirar do outro sua dignidade.

O cristão pode dizer “não concordo” sem dizer “você não merece respeito”.

Pode denunciar um erro sem odiar quem errou.

Pode defender a família, a vida, a dignidade do corpo e seus princípios morais sem transformar pessoas diferentes em inimigos.

Essa talvez seja uma das maiores provas da autenticidade da nossa fé.
*Não sejamos omissos

Estamos diante de um período decisivo para o Brasil.

E talvez a pior escolha não seja apenas escolher um candidato errado.

Talvez seja não querer saber.

Não procurar informação.

Não conhecer a história.

Não questionar.

Não discernir.

Não participar.

Ou escolher apenas porque alguém nos disse em quem deveríamos votar.

A omissão também produz consequências.

Por isso, diante das urnas, o cristão precisa levar consigo não apenas o título de eleitor.

Precisa levar sua consciência.

Precisa levar seus valores.

Precisa levar sua fé.

Precisa levar sua responsabilidade diante de Deus e diante da sociedade.

E talvez aquela pergunta que nasceu dentro de mim naquele retiro possa também ser feita a cada um de nós:

Quando a verdade estiver diante de nós e exigir coragem, estaremos ao lado dela?

Quando alguém do nosso lado errar, teremos coragem de reconhecer?

Quando alguém do outro lado for injustamente acusado, teremos coragem de defender a justiça?

Quando alguém utilizar Deus apenas como discurso eleitoral, teremos discernimento para perceber?

Quando a mentira for conveniente, continuaremos escolhendo a verdade?

Talvez a grande batalha do nosso tempo não seja descobrir quem é o dragão.

Talvez seja descobrir se ainda teremos coragem de permanecer do lado de Deus quando permanecer do lado da verdade tiver um preço.

Porque, no fim, não será suficiente dizer que somos cristãos.

Precisaremos responder, com nossas escolhas e nossas atitudes, se realmente vivemos aquilo que Cristo nos ensinou.

E diante das próximas eleições, fica a pergunta: quando chegar a hora de escolher, estaremos conscientes de que lado estamos colocando o nosso voto — e de que lado estamos colocando a nossa consciência?



* André Lino Becker: Cidadão santa-helenense, defensor da fé cristã, da família e da sobriedade como caminho de restauração pessoal e social. Atuou como professor, bacharel em administração de empresas pela Unioeste e pós-graduado em gestão pública. Servidor público aposentado, foi dirigente sindical e líder comunitário atuando em pastorais. Atualmente é prestador de serviços na área da construção civil, como sócio-proprietário da Tecnobrocas.

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