Quem investe em renda fixa está de olho em um número fora do comum: o Tesouro IPCA+ 2032 chegou a pagar cerca de IPCA + 8,45% ao ano, um dos maiores retornos reais da história recente do Tesouro Direto. Para comparar, segundo a Exame, a média histórica das NTN-Bs desde a criação do programa gira em torno de 5,76% ao ano.
O número seria motivo de euforia, não fosse um movimento relevante: o próprio Tesouro Nacional cancelou, na última segunda-feira (22), uma oferta de NTN-Bs. Segundo especialistas ouvidos pela Exame, o governo não aceitou emitir dívida ao custo que o mercado estava exigindo.
Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, explica que não faltaram compradores. O que houve foi uma briga de preço: o Tesouro considerou o custo alto demais para se financiar naquele momento.
A alta das taxas ganhou força após o último Copom, que cortou a Selic para 14,25% ao ano mas sinalizou cautela com a inflação. A incerteza sobre as contas públicas e os desdobramentos da política monetária nos Estados Unidos também pesaram.
Viviane Las Casas, especialista de renda fixa da Valor Investimentos, alerta que o cancelamento do leilão resolve o problema só na superfície. A causa do estresse, que é a incerteza fiscal e a trajetória da inflação, segue no ar.
Para quem pensa em investir, a taxa está em nível historicamente elevado e pode representar uma janela rara. Mas a orientação dos especialistas é clara: só faz sentido entrar com horizonte de longo prazo e sem depender do dinheiro antes do vencimento.
Quem comprar o Tesouro IPCA+ 2032 e carregar até o final trava a rentabilidade contratada. Quem precisar vender antes fica sujeito à volatilidade do mercado e pode ter perdas. Segundo o consultor financeiro Renan Diego, a pergunta certa não é se a taxa está boa, mas se o título está alinhado ao objetivo de quem está investindo.
Lucas Oruam/FE







