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Torniquete

(Arte: Poder360)

Por Elder Boff*

A renúncia de Moraes como torniquete: conter a hemorragia para salvar o Tribunal que agoniza

Comecei a rascunhar um pedido ao meu assistente virtual para refletir sobre a história das instituições democráticas — e sobre como há momentos em que a permanência de um indivíduo custa mais caro do que sua biografia.

À medida que desenhava as palavras, impulsionado pelo hábito de anos analisando a cena pública, percebi que o questionamento já havia ganhado corpo. Cabia a mim apenas lapidar o texto: ajustar sintaxe, pontuação e coesão para enfatizar o ponto de vista com a clareza que o tema exige.

Veio-me à memória o tempo em que brincava com as palavras nos artigos diários que ainda habitam o espaço de colunas do Correio do Lagosão cerca de 1.200 deles, escritos inicialmente há praticamente duas décadas, quando não tínhamos Google nem inteligências virtuais, apenas o bom e velho Aurélio sobre a mesa.

De volta ao cerne da questão: o Supremo Tribunal Federal atinge hoje o ápice da maior crise corporativa e de imagem da sua trajetória, sufocado por revelações que enredam o gabinete do ministro Alexandre de Moraes. Diante desse cenário, a tese antes restrita à oposição ganhou o peso do consórcio de imprensa: a renúncia do magistrado deixou de ser um tabu e se tornou um imperativo.

Grandes veículos de comunicação, historicamente defensores da estabilidade do STF, capitularam diante dos fatos e passaram a cobrar abertamente o afastamento do ministro. Editoriais incisivos do O Estado de S. Paulo sustentaram que “Moraes tem de sair do Supremo”, enquanto a Folha de S.Paulo apontou de forma categórica que “a Moraes cabe a renúncia”, por considerar sua permanência insustentável. Até mesmo O Globo, tradicionalmente cauteloso, rompeu a retórica ao exigir explicações imediatas sobre a promiscuidade das relações expostas.

Anatômica e politicamente, o Supremo se comporta hoje como um corpo atingido por uma artéria rompida. A saída de Alexandre de Moraes funciona como um torniquete de emergência, uma manobra drástica destinada a conter o fluxo ostensivo de desconfiança. Ela atua diretamente na ferida mais exposta do Judiciário, oferecendo uma trégua imediata à pressão pública e estancando o sangramento visível da corte.

No entanto, aplicar um torniquete em um paciente traumatizado diminui a perda de sangue, mas não cura a infecção que se alastrou. A gestação de inquéritos perpétuos, a extrapolação do devido processo legal e a simbiose entre julgadores e investigados criaram uma patologia sistêmica na Corte. O gesto individual de renúncia acalma a hemorragia diária dos jornais, mas deixa intacto o arcabouço de exceções construído nos últimos anos.

Sem a abdicação voluntária, a crise ameaça empurrar o país para um processo desgastante de impeachment no Senado. Esse cenário submeteria o STF a meses de sangria institucional diária em praça pública, debilitando ainda mais a autoridade de suas decisões ordinárias. A renúncia surge, portanto, como a saída menos traumática para evitar que o tribunal desmorone sob o peso de um único membro.

Para o próprio Supremo, aceitar a demissão voluntária de seu integrante mais temido seria o primeiro passo de uma longa convalescença. A medida retira o alvo primário da linha de tiro, permitindo que os demais ministros ensaiem uma autocrítica e retomem o ecossistema de freios e contrapesos. Preserva-se a estrutura do edifício jurisdicional às custas do sacrifício de uma de suas pilastras mais controversas.

Ainda assim, não se deve ter ilusões sobre o alcance do gesto. A saída de Moraes não estanca definitivamente a crise institucional porque a contaminação já afetou a jurisprudência, as garantias individuais e a própria neutralidade percebida do tribunal. O torniquete impede que o organismo morra esfacelado no curto prazo, mas a recuperação da credibilidade exigirá anos de rigoroso tratamento institucional.

A história cobrará do STF e do próprio ministro a lucidez para entender que o interesse público se sobrepõe ao orgulho corporativo. Renunciar não significa apagar o passado nem reconhecer culpa prévia em foro íntimo, mas admitir que nenhuma biografia é maior do que a Constituição. Se o torniquete é a única forma de conter a sangria atual, que ele seja aplicado antes que a erosão da Corte se torne irreversível.




* Elder Boff é articulista e editor-chefe do Fonte Extra

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