Mensagens de WhatsApp da lobista Roberta Luchsinger indicam que ela dizia usar aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) e frequentar o Palácio do Planalto e a casa do presidente Lula. O conteúdo contrasta com a fala do próprio presidente, que afirmou em sabatina da TV Globo não conhecer a lobista. As conversas foram divulgadas nesta segunda-feira (21) pela coluna de Andreza Matais, no Metrópoles.
Roberta é amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. Fatos ligados aos dois são apurados em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF).
Mensagens citam voos e visitas
Em 24 de março de 2023, Roberta escreveu à mãe que tinha ido a Brasília de “aero Lula”. A mãe perguntou, em áudio, se era o avião do presidente, e a lobista confirmou. Em seguida, enviou uma foto feita dentro do Planalto, com o Congresso ao fundo.
Registros da portaria do palácio, disponibilizados pela Lei de Acesso à Informação, mostram que ela entrou no prédio em 22 de março de 2023, às 15h37.
Em fevereiro de 2024, Roberta disse a um cliente de sua empresa de consultoria que voltava de FAB de uma reunião da ONU. Naquele mês, ela viajou à Suíça com as filhas, Lulinha e a família dele, e esteve na sede da ONU, em Genebra. Segundo o Metrópoles, ao menos a volta ao Brasil foi feita em voo comercial da TAP.
Nas conversas, Roberta costuma chamar Lula de “pai do Fábio”. Em 25 de outubro de 2023, disse a um contato que ainda estava na casa dele e que iria embora em breve. Em 11 de junho de 2025, escreveu a uma advogada que estava no palácio, na sala do presidente, e por isso não conseguia escrever muito.
Em outubro de 2024, ela contou a outro contato que antecipou uma ida a Brasília a pedido de Lula, depois de o presidente cair durante o banho. A queda aconteceu em 19 de outubro daquele ano, e é esse fato que, segundo a coluna, permite identificar de quem ela falava. Em outra conversa, um advogado de São Paulo pediu que ela tentasse intermediar um contato com Lula sobre o conflito entre Israel e Palestina, e ela respondeu que tinha estado com o presidente e com o filho dele na semana anterior.
Áudio fala em embarque pela base aérea
Em áudio enviado em 1º de novembro de 2023 a uma assessora do governo da Bahia, Roberta diz que estaria com o filho do presidente e que a viagem seria de FAB, com embarque pela base aérea. Por isso, afirma, não conseguiria administrar os horários de voo e sugere conversar nos intervalos de um evento. O áudio não informa qual era o evento nem se o voo aconteceu.
Veja a transcrição do áudio:
“Paula, então eu acho que se a gente conseguir falar durante o evento, talvez em algum intervalo, é mais fácil, porque eu vou estar com o filho do presidente. Então vai ser um pouco diferente, porque nós vamos de FAB e eu não consigo administrar esses horários de voo, porque a gente embarca pela base aérea, entendeu? Talvez durante o evento, nos intervalos, a gente consiga encaixar. Você consegue passar isso para ela para a gente ver? Porque eu não vou estar de voo comercial, não vou estar embarcando na parte normal.”
Lula negou conhecer a lobista
Em 27 de agosto, na sabatina do Jornal Nacional, conduzida por César Tralli e Renata Vasconcellos, Lula chamou Roberta de pilantra e disse: “Eu não conheço essa moça.” O presidente afirmou ainda que as conversas obtidas pela Polícia Federal (PF) não comprovam, até o momento, uso de dinheiro público e que não há acusação formal contra Lulinha, apenas suposições tiradas de mensagens.
Depois da entrevista, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, publicou quatro imagens em que Lula aparece com a lobista. A CNN Brasil contou mais de dez fotos dos dois, várias delas publicadas no Instagram de Roberta, incluindo registros da campanha de 2022.
Em nota, a campanha de Lula afirmou que as fotografias não indicam relação pessoal, profissional ou política, já que o presidente é uma figura pública frequentemente abordada para fotos. A campanha reforçou que ele não mantém relação com Roberta e nunca teve interlocução com ela.
O que a investigação apura
As apurações no STF estão sob relatoria do ministro André Mendonça. O principal inquérito investiga a suspeita de que Roberta, Lulinha e Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, tenham praticado tráfico de influência no Ministério da Saúde para vender medicamentos derivados da maconha, como o canabidiol (CBD). Segundo o Metrópoles, Roberta apresentava Lulinha a terceiros como sócio, embora os dois não tenham empresa em comum. Lulinha atuou com Antunes na Cannabis World, empresa de cannabis medicinal, e vive na Europa desde meados de 2025.
De acordo com a Folha de S.Paulo, citada pelo Poder360, mensagens obtidas pela PF mostram Roberta pressionando Lulinha a agir em favor de negócios de interesse de Antunes com o Ministério da Saúde, envolvendo canabidiol e kits de teste de dengue. Nenhum contrato foi fechado. Segundo a Folha, as tratativas chegaram a envolver contratos de até R$ 627 milhões.
Em parecer revelado pelo Jornal Nacional em 20 de agosto, a Procuradoria-Geral da República observou que a PF viu indícios de atuação de Roberta e Lulinha para favorecer os interesses de Antunes, mas que a relação não resultou em negócios com o poder público. O Ministério da Saúde já informou que o remédio não é oferecido na rede pública e que a pasta não compra esse tipo de medicamento.
O advogado de Roberta, Roberto Podval, disse anteriormente que ela responderá às questões nos autos do inquérito. Em maio, Roberta afirmou ter apresentado Lulinha a Antunes por educação, sem intenção de negócio, e negou ter intermediado transações entre eles.
Confira os prints das conversas abaixo:





Lucas Oruam/FE com informações do Metrópoles





