Advogado de Cascavel falou direto da Superintendência da PF ao FE
A Polícia Federal concluiu uma etapa decisiva no inquérito que investiga a tragédia do voo 2283 da Voepass, que resultou na morte de 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. Nesta quinta-feira, a corporação indiciou 16 funcionários e ex-funcionários da companhia aérea por atentado contra a segurança do transporte aéreo.
Dentre as vítimas, estava a advogada Laiana Vasatta, sobrinha do então presidente da câmara de Santa Helena, atual vereador, Paulinho Vasatta.
O advogado que representa as famílias das vítimas, Luciano Katarinhuk, compartilhou laudos técnicos e detalhou em vídeo os desdobramentos operacionais e as responsabilidades apuradas no dia de hoje, marcando um passo crucial na busca por justiça e respostas aos familiares.
Luciano Katarinhuk em vídeo enviado ao Fonte Extra, direto de SP na tarde de hoje, quinta-feira (6).
Responsabilização de dirigentes e corpo técnico
O indiciamento atinge desde profissionais da engenharia e aviação até a alta cúpula da empresa sediada em Ribeirão Preto. Entre os alvos estão o proprietário da Voepass, José Luis Felício Filho, e o diretor de manutenção, Eric Cônsoli, apontado como uma das figuras centrais da gestão antes da paralisação dos serviços da empresa. A PF enquadrou os investigados no artigo 261 do Código Penal, cuja pena, agravada pela queda do avião e pelas dezenas de mortes, pode alcançar até 24 anos de reclusão para os envolvidos que agiram com responsabilidade direta ou negligência.
Falha no degelo e procedimentos ignorados
Após quase dois anos de apuração detalhada, o laudo do Instituto Nacional de Criminalística (INC) definiu que a causa primária da queda do ATR 72-500 foi a perda de controle em voo. O estol foi provocado pelo severo acúmulo de gelo nas asas, somado à inoperância do sistema pneumático de degelo e à ausência de execução adequada de cinco procedimentos de emergência pela tripulação. A reconstituição indicou que o avião degradou seu desempenho rapidamente sem que medidas corretivas de altitude ou velocidade fossem adotadas a tempo.
Apagão de registros e a cultura do “não report”
Em coletiva de imprensa, o diretor do INC, Carlos Eduardo Palhares, revelou que a aeronave vinha operando com falhas crônicas no sistema de degelo antes mesmo do voo fatal que partiu de Cascavel (PR). As investigações identificaram uma “cultura de não report” na empresa, na qual pilotos e equipes omitiam panes e alertas nos diários de bordo técnicos para impedir que o avião fosse retido em solo. A prática veio à tona com o resgate dos dados da caixa-preta, que desmascarou os históricos operacionais ocultados pela tripulação e pela manutenção.
Alertas ignorados na cabine e áudios reveladores
O laudo pericial confirmou que três alertas sucessivos de perda de desempenho foram emitidos no painel da aeronave durante o voo — incluindo o aviso sonoro e luminoso “Cruise Speed Low” —, mas nenhum procedimento padrão foi executado. As transcrições da cabine de comando mostraram a ciência dos pilotos quanto ao problema, com registros de áudio captando o desabafo de um dos tripulantes sobre o mau funcionamento do equipamento: “Essa bosta não tá funcionando, né?”. Mesmo cientes do risco e da formação de gelo severo, não houve pedido de alteração de altitude ao controle aéreo.
Perícia técnica exaustiva e apoio do Cenipa
Paralelamente às investigações criminais da Polícia Federal, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) realizou uma varredura completa da tragédia. Os peritos da Força Aérea Brasileira (FAB) examinaram mais de 15 mil voos da frota, analisaram lâmpadas dos painéis, realizaram testes em simuladores e executaram um voo experimental com outra aeronave do mesmo modelo. A soma dos relatórios técnicos revelou uma cadeia contínua de falhas, que envolveu desde a liberação de decolagem pelo Despachante Operacional de Voo (DOV) até a quebra de múltiplas barreiras de segurança na aviação.
A relação completa dos indiciados pela Polícia Federal
Com base no relatório conclusivo entregue às autoridades jurídicas, os 16 indiciados no inquérito da Polícia Federal são:
- Alex de Souza Leandro
- Carlos Alberto Costa
- David da Costa Faria Neto
- Edson Serra Martins
- Eric Cônsoli
- John Major Viana
- José Luiz Felício Filho
- Juliano Flores Pacheco
- Luciano Alves de Macedo
- Marcel Sarquis Moura
- Marcos Hiroyuki Sato
- Oderlino de Campos Figueiredo
- Rafael Gimenez Rodrigues
- Raphael Limongi de Figueiredo
- Tiago Passucci Morani
- William Schmidt Agatz
Posicionamento da companhia e próximos passos judiciais
A Voepass declarou em nota que a queda do voo 2283 representa o momento mais difícil de sua história e reafirmou solidariedade aos familiares das vítimas. A companhia alegou que sempre cumpriu padrões internacionais de segurança, manteve certificações rigorosas e ressaltou a vasta experiência da tripulação. Com a conclusão do inquérito policial, o processo segue para o Ministério Público Federal (MPF), órgão responsável por analisar as provas e formalizar a denúncia criminal à Justiça para o início do julgamento dos envolvidos.







