Por André Becker*
Há momentos em que um país precisa olhar para o espelho e perguntar: que nação estamos construindo? O Brasil parece caminhar perigosamente para um cenário em que o cidadão honesto trabalha, paga impostos e cumpre a lei, enquanto o criminoso e o corrupto encontram, repetidas vezes, caminhos para escapar das consequências de seus atos.
A sociedade brasileira assistiu ao escândalo do Mensalão. Depois veio a Operação Lava Jato, que revelou um gigantesco esquema de corrupção envolvendo a Petrobras. Anos depois, decisões judiciais anularam condenações por questões processuais, reacendendo um intenso debate sobre os limites entre a garantia dos direitos individuais e a efetividade do combate à corrupção. Independentemente das posições políticas, permanece a sensação de impunidade que tomou conta de grande parcela da população.
Agora, o país acompanha as investigações sobre as fraudes envolvendo benefícios do INSS. Mais uma vez, bilhões de reais desaparecem dos cofres públicos. E quem paga a conta? Não são os responsáveis pelas irregularidades. É o contribuinte, que enfrenta aumento da carga tributária, novos impostos e serviços públicos cada vez mais precários.
Também chamam a atenção as discussões em torno do Banco Master, cercadas por questionamentos e investigações. E parece estar vindo aí mais um caso de banco, dessa vez superando todos os limites, envolvendo entidades religiosas e políticas, trazendo descrédito inclusive ao setor da fé. Em uma democracia saudável, qualquer suspeita relevante deve ser apurada com independência, transparência e respeito ao devido processo legal. Da mesma forma, toda tentativa de descredibilizar ou intimidar instituições responsáveis por investigar merece reflexão, pois a confiança da população depende justamente da credibilidade dessas instituições.
Enquanto isso, na região Norte, multiplicam-se relatos de operações de fiscalização ambiental que resultam na destruição de propriedades, apreensão de bens e retirada de rebanhos. É dever do Estado proteger o meio ambiente, mas também é dever garantir o devido processo legal, o direito de defesa e a proporcionalidade na atuação do poder público. A força da lei jamais pode substituir a força da Justiça.
Como se não bastasse, sucessivos cortes orçamentários nas Forças Armadas levantam preocupações sobre a capacidade de vigilância das extensas fronteiras brasileiras. Fronteiras menos protegidas significam oportunidades maiores para o tráfico de drogas, armas e o fortalecimento do crime organizado.
O resultado dessa soma de acontecimentos é devastador. O brasileiro começa a perder a confiança nas instituições. E quando a sociedade deixa de acreditar que a lei vale para todos, abre-se espaço para o descrédito, para a desesperança e para o enfraquecimento da própria democracia.
Mais preocupante ainda é o legado moral que estamos deixando às futuras gerações. Que mensagem transmitimos aos nossos filhos e netos? Que o esforço vale menos do que a esperteza? Que cumprir a lei é para os ingênuos? Que o poder sempre encontra uma forma de escapar das consequências?
Esse sistema está levando as pessoas a confundirem o que é a verdade.
Os valores que sustentam uma civilização não podem ser negociados. A ética não muda conforme a conveniência política, nem conforme a maioria do momento.
Como escreveu o pensador britânico G. K. Chesterton: “O certo continua sendo certo, ainda que ninguém o faça; e o errado continua errado, ainda que todos o façam.”
Enquanto o Brasil não voltar a acreditar nessa verdade simples, continuaremos assistindo à inversão de valores em que o cidadão de bem paga a conta, e o crime, muitas vezes, parece compensar.

* André Lino Becker: Cidadão santa-helenense, defensor da fé cristã, da família e da sobriedade como caminho de restauração pessoal e social. Atuou como professor, bacharel em administração de empresas pela Unioeste e pós-graduado em gestão pública. Servidor público aposentado, foi dirigente sindical e líder comunitário atuando em pastorais. Atualmente é prestador de serviços na área da construção civil, como sócio-proprietário da Tecnobrocas.







